terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Sobre pousos
Ele nem precisara dizer algo como "faça de meus braços sua pousada". Marianne Moore já havia me alertado que "pousadas não são residências". E ele era, é, sincero demais para me permitir a confusão. Não, ele não me deixa esquecer e nem alimenta minhas ilusões mais escondidas. Então eu finjo por nós dois. E faço de conta que sou um pássaro ou um barco, que não se demora em portos ou cais. Eu minto que gosto de tempestades, ventos e ondas, que não sei ser água calma. Eu digo para mim mesma que eu sei viver os perigos do escuro, que minha alegria está na noite e na rua, e que as novas dores vão passar mais rápido. Eu falo que aceito pouco porque não quero o peso do muito, e que rótulos são para os outros, não para mim. Só que quem me conhece sabe. E ele já teve tempo para ver o que eu tento esconder na tentativa de ficar mais um pouco, de não levantar vôo, de não tirar essa âncora pesada que eu joguei ao seu lado sem ele se dar conta. Eu sou um pombo subindo uma escada sem usar as asas, como se fosse gente. E ele ri porque esquece o gosto de ser humano. Eu sei que não conseguirei mais andar distraída, mas algo dentro de mim ainda insiste: será teimosia ou amor?
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