sábado, 17 de dezembro de 2011

Não, eu não sei o que fazer disso. Se calo ou grito. Se nutro ou mato. Ele me disse para não criar expectativas, e eu respondi que não sei viver sem elas. Falávamos de outra coisa, não de nós. Ou não. É nas entrelinhas que nossas palavras se cruzam. Como quando ele disse que as respostas não são o mais importante, mas as perguntas. E eu respondi que a partir das respostas nascem novas perguntas. Ou não, o que perde a graça. E ele se arrependeu tanto no momento em que perguntou "o que você está pensando?', que eu quase ri ao constatar o medo da resposta. Não, eu ri. E para manter seus dedos entrelaçados nos meus, eu não disse. Ou disse, nas entrelinhas, citando Leminski. E é fitando seus olhos em silêncio que eu digo, e ele responde com um beijo de olhos fechados. Esse diálogo se repete continuadamente e, ao final, eu já nem sei do que falávamos. Eu queria ter dito: quando estou com você eu não penso e eu gosto. E não é um não pensar de perder os sentidos ou a razão. Eu simplesmente não convoco as palavras e me deixo ser e sentir sem o auxílio delas. Ele entenderia, eu acho. Ou não. Tanto faz? Anoitece e nos despedimos. Até o próximo ano, ou antes, se o antes vier antecipando meu sorriso mais feliz.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Eu tinha acabado de desligar o telefone. Antes tivessemos continuado a conversar, pela noite adentro. Eu ali, um pouco distante das pessoas para poder ouvi-lo. Ou, talvez, eu não devesse ter insistido nessa idéia tola de sair sozinha com meus pensamentos.

Não tem jeito. Eu fui. E como se todas as verdades que me surgiram essa semana não bastassem, como se fosse pedir muito um pouco de delicadeza do mundo, como se fosse demais uma borboleta ou beija-flor passar e eu me encantar como sempre me encanto, o que veio foi mais uma onda forte, batendo na cara e marejando meus olhos. Pelo visto, ando merecendo esses sustos que embrulham o estômago e deixam gosto de ressaca na boca.

Se bem que não acho que a vida tenha algum sentido de merecimento. E, sim, eu sei que talvez você me responda com aquela história de peso, água e mar. Outra hora, por favor, porque hoje minhas palavras não tem força e nem consolam.

E foi isso. Eu derramei minhas lágrimas lá mesmo e vim pra casa. Pelo menos, eu tive dois colos de poucas perguntas e muito carinho. E se essa é a lei da compensação, eu a aceito.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Você me ligou! Não, não vou responder à sua pergunta. Vou sim, me perder em metáforas, afinal, é esse o nosso acordo silencioso. Quem? Você pergunta. E importa? Nada nele é a explicação para o que sinto. O que sinto só é (pouco) compreendido pelo "nós". E "nós" somos algo que ñem bem existe. O que quero dizer é que é na relação com o outro que está esse sentimento que guardo, embora relação seja uma palavra pouco apropriada nesse caso.

Enfim, eu já pensava em lhe escrever um texto que começasse assim: "todos os devaneios serão perdoados". Como forma de pedir perdão a mim mesma pelo que insisto em fantasiar. Eu não disse nada daquilo. E acho que ele também não quer ouvir. E se ontem isso me atormentava, hoje já peguei as rédeas soltas do cavalo que há em mim (ah, você vai entender a referência). Hoje eu peguei as rédeas e recuperei meu prumo. Eu volto a ser aquela com vontade de se guardar. Eu não vou oferecer presentes ao que não for futuro.

P.S: Volte um pouco e você o verá nas entrelinhas...


Um beijo e meu carinho

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Talvez eu devesse dizer a ele como eu me sinto. E contar que, embora seja algo novo, diferente, e complicado, eu não estou assustada. Eu queria explicar que das outras vezes eu procurava alguém que me fizesse feliz, e que essa felicidade nunca passou de fotografias instantâneas e forçadas. Até que, depois de experimentar alguns momentos de profundo estado de graça, parei minha busca. O mundo, que tanto me angustiava, passou a ser fonte de encantamentos. E ainda que vez por outra eu encare o horror de frente, e vez por outra chore pelo que há de mau, meu encantamento persiste. Eu deixei de ter medo do que é estar viva nesse mundo, e passei a agradecer pelo mesmo mundo que outrora me amedrontava.

O que eu queria dizer a ele era isso: eu já sou feliz. Tenho meus momentos tristes, como este agora, mas também são eles produto das minhas alegrias. Eu acho que ele compreenderia que ao dizer isso eu estou dizendo que não o quero para preencher ausências e vazios, embora eu os tenha. Eu não o quero porque veja nele uma forma de redenção. Eu não o quero para colorir a minha vida e dar sentido aos meus dias. Eu não o quero para ser feliz para sempre comigo. Eu não o quero para ser meu escudo, meu apoio, meu porto seguro, minha alma gêmea, minha metade da laranja.

Eu o quero porque eu acho que estou pronta para ele, embora tenha sérias dúvidas quanto ao contrário. Eu o quero porque é para ele que eu quero sorrir meu sorriso mais lindo. Eu o quero porque o que guardo em mim é bonito demais para ser trancado ou sequer embrulhado em papel de presente. Eu o quero porque acredito que é pra ser e que será bom. E esse bom é o meu correto. Eu o quero porque não tenho mais paciência para fugas, embora eu não tenha mais a pressa que já tive. Eu o quero porque quero seus olhos conversando com os meus.

Eu queria dizer tudo isso a ele. Também queria falar que a minha única angústia é não saber o que ele sente. Eu sei, eu disse a ele que sentir não era o bastante. A verdade é que nada é o bastante para quem tem fome. Eu queria dizer a ele que tenho fome, mas espero. Só que eu preciso saber. E só vou saber se perguntar. Eu queria dizer a ele que odeio ter que perguntar. Ele vai querer saber o que. E talvez, talvez eu conte o que contei agora.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Meu amigo,
Você pede que eu escreva, mas não sei de onde tirar palavras. Eu o chamaria de bobo quantas vezes fossem necessárias para você estar certo do meu gostar e da minha amizade. E o chamaria de chato outras tantas, para provar que não me esqueço que é assim, por vias tortas e estranhas aos de fora que nos acarinhamos.
Eu sinto muito em saber, não da sua solidão, mas do fato de ela lhe doer. E eu lhe entendo. Embora esteja me acostumando, e se antes eu planejava minha vida conforme as pessoas, hoje considero também as ausências. Essas ausências assimiladas falam mais de mim que muitas coisas presentes.
No momento, alterno profundas alegrias secretas com angústias também secretas. É o preço a se pagar por escolher o caminho que escolhi. Qualquer dia, juro, me desfaço das máscaras e me dou o direito de dizer em voz alta para eu mesma ouvir o que carrego comigo. E se guardo, não é por vergonha, ou orgulho, mas só pelo medo da tolice. A verdade é que ando fazendo sacrifícios aos deuses errados...

Isso tudo é a minha forma de dizer que você continua sendo querido. Tão querido a ponto de eu ainda ser capaz de me abrir e confessar como não é o costume. Falar a você é só o modo que encontrei de expressar meu carinho, e de mantê-lo cúmplice, e de alegrar-me por saber que você sabe, você sempre sabe, o que vai nas entrelinhas.

Cuide-se. Fique com um beijo e um sorriso, e não deixe a vida ter mais peso do que o necessário. Se pesar demais, vá ao mar. Você sabe.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cansada desse meu espírito bossa nova de sol, céu, sul ou coisa que o valha. Ou de concordar com o velho Vinicius de que "ninguém tem nada de bom sem sofrer". E de me deixar contaminar pela sonoridade de Baden, afirmando que "quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém". A verdade é que não sou boa capoeira, e janela aberta também empena. O que fazer se gosto tanto de me ver ainda corajosa, ainda forte, ainda crédula, ainda disposta a viver amor? O que eu faço se nenhuma das minhas quedas me insinou a desistir dos caminhos de pedras e só me lançar aos limpos e gramados? Eu sou assim, por mais que doa. O gosto está em gritar: "eu sou o que sinto".

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Querido M., adivinha o elogio que ouvi hoje! Por favor, comente dessa vez... tenho certeza de que saberás... um grande beijo

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Hoje acordei com uma vontade enorme de me poupar. De guardar meus sentimentos em uma caixa de sapatos e deixar estar. Vontade de chegar pertinho do abismo e não pular; de molhar os pés no mar e não mergulhar; de sentir a água gelada do rio e ainda sim resistir a um banho.
Eu não sei muito bem porquê, mas acordei com uma indiferença tardia, que me alerta que ainda há tempo de eu largar essa minha mania de gostar de farpas na sola do pé só porque sentir algo é melhor que não sentir. O amanhecer me gritou que eu preciso esperar, e deixar estar, deixar ser como há de ser, que não devo me precipitar só porque desatinaram antes de mim.
Amanhã, meu amigo, talvez eu acorde com vontade de me dar, e cante Vinicius, e diga que "ninguém tem nada de bom sem sofrer". Só que hoje, não. Vou, como sempre, seguir meu coração, que embora meio fraco e remendado, eu ainda ouço, e que me alerta que ainda é cedo, ou tarde demais, para essa história acontecer.

sábado, 10 de setembro de 2011

Sim, eu confesso, estou imersa em silêncio. Dentro de mim, apenas o coração parece querer dizer algo, mas sua batida é a de um tronco oco. Sim, é isso, meu coração é o oco ecoando o silêncio. E em pensar que este silêncio teve origem em palavras. Palavras demais, se me perguntas. Palavras que vieram feito onda grande que dá caixote em quem não está preparado para as artimanhas do (a?)mar. Nelas eu submergi, e ainda não regressei, e lembro agora que já ouvi que debaixo d´água, ao nos afogarmos, perdemos a noção, e nadamos para baixo, não para cima. Há tempos, meu amigo, que ando enganada sobre meus próprios movimentos, agora eu vejo.

Eu sei que você entenderá tudo o que digo, acostumado que está aos meus desabafos tortos. E eu comecei esse texto na vontade de escrever uma frase, mas me falta a coragem agora. Porque escrevê-la seria dar nome ao meu silêncio, nome impróprio e abstrato. Um silêncio que já começou a pesar, e a doer...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Apontamento (Álvaro de Campos)

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

sábado, 3 de setembro de 2011

Eu descobri que funciono assim: me poupo, me prendo, me retraio, e até me nego. Até que uma hora, cansada das amarras que eu me imponho por comodismo, vergonha, medo ou bom senso, eu me doo. E quando eu me doo, é como uma represa que arrebenta, como a água que corre com força. E uma vez ali, correndo, eu não quero voltar a me tolher. Só que as pessoas correm de águas desordenadas. As pessoas insistem em apreciar as Cataratas pela TV e a mergulhar em banheiras de água morna. Todos querem grandes aventuras, mas ninguém quer pagar o preço da escolha.

domingo, 21 de agosto de 2011

Mais uma vez, fico entre a vontade de saltar e o medo de cair. A ação é a mesma, e o que muda é só o que vou encontrar lá embaixo. Eu sei que só vou saber depois do pulo, e que é perda de tempo essa vida de cálculos que nunca conseguiram me frear. Eu demoro, mas sempre me entrego à vontade de simplesmente viver e vivenciar. Eu me julgo por não ser passional, mas, no final das contas, de que são feitas essas cicatrizes se não de paixões?
Acho que o meu medo não é sofrer. Eu temo é cortar a dor um dia, e me negar ao mundo de repente. Porque eu continuo tentando, perdoando, amando, mas até quando? Será muito pedir que haja finalmente um descanso nessa busca, um colo, um regaço, um canto? Não para sempre, mas por um tempo. Só pelo tempo em que sejamos felizes. Só pelo tempo necessário para eu olhar as novas feridas e achar que o prazer do vôo as supera.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

E você, meu amigo, mais uma vez me cobra presença nesse espaço do qual eu me esqueço. E questiona meus sentimentos, imaginando se eu, enfim, me afastarei de uma vez por todas. Será que eu ainda não deixei claro que no meu mundo há sempre um perdão para quem o quiser? Talvez estejamos falando de coisas diferentes, é bem possível, e eu não faça idéia dos motivos que teria para ficar chateada.

Sobre mim, tudo segue mais ou menos o mesmo. Nem mesmo meus sentimentos mudam tanto assim. A minha maior alegria tem sido olhar as fotos do pequeno que veio ao mundo. Espero visitá-lo amanhã para cantar algumas músicas que ele precisa ouvir desde logo, mas me perco em tão vasto repertório e na procura por uma canção que caiba na minha voz estridente. Há um tanto de esperança nesse nascimento que acabou por me aquecer um pouco o coração. Só que, estranhamente, sinto-me mais só.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Por um recomeço

A cada aniversário ou passagem de ano, minha mãe me diz que a minha vida vai deslanchar, que vai ser meu ano, que vou ter muitas realizações. Hoje ri com ela ao adverti-la disso, depois de ouvir mais uma vez a mesma frase.
É que a proximidade de mais um aniversário sempre me faz pensar mais nas ausências que nos presentes (com trocadilho, por favor). Em tudo o que sonhei e não fiz, em tudo o que projetei e não sou, em todos os que deixei pelo caminho, em tudo o que não vivi, enfim. Quando se aproxima o final do dia do meu aniversário, contabilizo as ligações que não recebi, as cartas que não chegaram, as frases nunca ditas. Eu estou sempre à espera do que não virá nunca. Porque o tempo passa na janela e só eu, Carolina, teimo em não ver (ou aceitar).
E a cada ano, me prometo um recomeço. Eu digo a mim mesma que devo felicitar-me pelos que estão aqui comigo. Eu teimo comigo que, no final das contas, valeu a aprendizagem. Eu tento me convencer de que devo plantar capim-limão e colher cheiros novos. Só que a verdade é que não sei me despedir.
Por mim, a vida seria só de reencontros, de redescobertas, de reais recomeços. Porque a inocência que há em mim vê delicadeza em se surpreender com a mesma coisa um milhão de vezes. Chega a provocar uma certa vaidade quando me encanto duas vezes com a mesma coisa sem saber que são a mesma coisa porque em momentos diferentes. Sinto-me segura de mim.
E estou cansada demais para... sei lá...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Estou com falta de surpresas e encantamentos. Prometo que amanhã vou buscar reparar em borboletas, pássaros, crianças e flores. A alegria está na simplicidade, mas às vezes eu esqueço de andar distraída.

sábado, 28 de maio de 2011

E, de repente, como em uma epifania, eu penso: "tenho em meu coração um baobá". Aprendi com O Pequeno Príncipe que devemos logo distinguir baobás de roseiras para impedi-los de crescer. E se perdemos o tempo em que ele é ainda um simples arbusto? O que fazer quando o deixamos crescer e até o regamos, na ânsia por sua sombra, desapercebidos do fato de que baobás não dão frutos?
Eu guardo em mim um baobá, meu amigo. E meu coração é um planeta pequeno. Talvez menor que o asteróide B 612...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Querido M.,
Os dias estão mais corridos e longos. Pode isso? Algumas tristezas têm me ocorrido e me tirado as energias... coisas dessa nova vida de gente grande que faz as pessoas agirem com pequenez, entende?
Ando super ansiosa pela vinda do Pedro ao mundo. Ao mesmo tempo, preocupo-me com toda essa situação, você bem sabe. É um misto de alegria e medo. Meus dias são preenchidos por pressentimentos estranhos e dores de cabeça repentinas. Ontem chorei em meio a uma angústia sem explicação.
Eu tenho tanto medo, meu amigo! Há um tempo atrás, quando eu estava desiludida e fraca como nunca, foi ela, essa irmã que o destino me trouxe, quem me devolveu a gana por resistir. Ela disse: "você sempre foi forte, conseguiu tudo o que queria. E eu sempre te admirei por isso. Cadê aquela que eu admirava? O que foi que fizeram com você? Eu nunca te vi fraca!"
Aquelas palavras foram porrada e afago ao mesmo tempo. E a partir delas eu decidi resgatar não a mim, mas aquela que ela acreditava que eu era. Eu me vi pelos seus olhos, e senti a falta de admiração que eu provocava. E aprendi como o amor resiste até mesmo a isso.
Eu ainda não me refiz por completo, é bem verdade. Ficou pelo caminho um pedaço e quem me conhecia nota. Só que ela entende essa falta e não me cobra. Só ela, meu amigo.
E foi o medo de perdê-la que me ergueu. Eu simplesmente não sei perder mais. Então, te peço, ore por essa que é também parte de mim, essa que você não conhece, e que é tão diferente de mim. Porque eu preciso dela comigo o resto dos meus dias para me lembrar do que fui e do que posso vir a ser.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Rio de Janeiro,dia de chuva no final de abril, 2011.

Hoje meus olhos também choveram, meu amigo. E embaçavam menos a minha vista que as gotas que caiam no vidro do carro, e as luzes de freio vermelhas dos carros a minha frente. Chorar ao volante tem as suas lições: dura pouco, porque o mundo não para que você chore. Todos querem correr, enquanto você pensa que só quer parar em um colo e adormecer um pouco. Todos querem chegar a um lugar, e você só quer voltar no tempo um pouquinho para observar melhor e, talvez assim, entender depois.

É realmente uma merda essa minha obsessão por entender tudo. Mas se você lesse o que eu reli, talvez você também se perguntasse como as coisas aconteceram desse jeito, como em três dias os discursos se transformam, como as possibilidades de felicidade escapam rápido por palavras suspiros e sorrisos. E eu nunca me agarrei tanto a algo. Nunca. E nunca perdi tão rápido.

Tenho medo de um desses pedaços que perco ser o mais bonito. Eu tenho tanto medo de ter medo de encantamentos, detalhes e suspiros. De, repentinamente, começar a me negar e proteger. Ao mesmo tempo, estou fraca demais para outros tombos e machucados. Eu nunca me deixo cicatrizar, é verdade, mas é por carinho que reabro a ferida, em busca de um resquício de amor, ou algo assim.

Bem, amanhã passa...

ps: Adorei conversar (e rir) com você ontem. Desculpas pelo meu medo de chuva e mau-humor repentino.. : )

domingo, 24 de abril de 2011

Rio de Janeiro, domingo de Páscoa.

Querido amigo,
Escrevo porque é domingo e espero o remédio para dormir fazer efeito. Tive um feriado alegre e etílico, mas domingos são sempre domingos, não é mesmo? Eu pensei que meu pai tivesse confundido ressaca com tristeza quando questionou meu silêncio, fora da baderna habitual a que se acostumou na minha presença. Acontece que não há ressaca, deve ser mesmo tristeza.
Meu pensamento foge para onde não desejo ir. Será que um dia eu vou entender realmente o que se passou? Eu relembro os "eu te amo" que ouvi ao longo da vida, e os que disse também. Eu, fiel escudeira preocupada com o peso dessa frase e com as responsabilidades que ela acarreta. Eu nunca consegui ser leviana com essas palavras. E desconfio tanto de quem as fala sem engasgar, sem ter brilho nos olhos, sem suor nas mãos, sem tremedeiras! Eu desconfio tanto quando essas palavras são ditas no escuro, como recompensa pelo sexo! Eu desconfio tanto quando dito a esmo, sem cuidado! Porém, eu sempre acredito, querido. Porque para mim é crueldade demais usar esse artifício e eu sempre espero o melhor de cada um.
Mas e se as pessoas simplesmente forem cruéis? Se algumas pessoas forem semeadoras de ilusões e falsidades? Ou será que somente não sabem amar, mesmo sentindo? Amar é verbo, amigo. E só ocorre na ação.
Amar é correr, é brigar, é lutar, é enfrentar. Amar é perdoar, é se arrepender, é recomeçar. Amar é fazer, não só falar. Amar é jogar tudo para o alto, se for preciso. Amar é querer estar junto.
Amar é tudo aquilo que não aconteceu logo depois de eu ouvir "eu te amo". Porque antes de dizer devemos ter certeza, e tendo a certeza faz-se um futuro. Se não queremos um futuro para que dizer? Eu devia ter prestado atenção nas mãos, nos olhos, no ritmo do coração... as palavras são apenas palavras... mas amar nunca é apenas...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2011.

Querido,
Já que você falou nisso hoje, fiquei me perguntando quantos desencontros há nessa vida (e se não seria mais exato dizer que "a vida é a arte do desencontro, embora haja alguns encontros pela vida..."). Que o Poetinha me perdoe a heresia, mas saber o que fazer dos desencontros é uma arte muito difícil de dominar. Como no poema de Elizabeth Bishop, One art:

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."


Desencontros são perdas? Ou serão presentes em embrulhos amassados? Quantos desencontros posso ter nessa vida? Quantos descompassos me aguardam ainda? Quantos desamores esperam o momento de vir à tona? Quantos desatinos posso cometer só pelo medo ou pelo orgulho da perda? E quantas vezes precisarei me perdoar por não dominar essa arte de perder? Não, não quero respostas. Espero um dia parar de formular essas questões infantis.

Nessas horas penso se não estou deixando de ser rio para ser lago. Se algum dia fui mesmo um rio corrente... Ou se só finjo desaguar o que guardo lá no lodo do fundo. Então lembro do que li sobre mar, pesca e lagoa, sobre abertura, triangulação e coisas sem sentido agora, mas que me fizeram sorrir um dia de fascinação. E eu sorrio de novo, constatando que minha dúvida não tem lugar de ser. Porque a minha natureza de água não muda, e é ela que muitas vezes foi condenada.

Estou cansada, vou dormir. Sinto falta de conversar com você. E sinto falta de não precisar correr tanto quanto agora.

Um beijo,
da menina cansada de balançar alto e não voar

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha vida é tomada por ensaios de recomeços e reencontros. Eu nunca desisto das pessoas, até elas terem desistido de nós. Meu amor é teimoso, persistente e eterno. Minhas amizades seguem as mesmas regras, embora com uma maior condescendência. Em suma, eu sempre acho que há algo ali a ser vivido, a ser compartilhado. Minha ingenuidade infantil não me permite ver finais ou mortes.
Acontece que sempre vem as tais das gotas. Aquelas que transbordam os copos, os corações e as palavras. É nessas horas que eu faço um corte imaginário e me coloco do outro lado da linha, cheia de orgulho. A gota às vezes é uma palavra, um gesto, um olhar. A gota muitas vezes é o silêncio e a solidificação do que ele traz. A gota às vezes se mascara de carinho, em outras cai asperamente.
E nem todo o meu apego as relações impede que uma gota simplesmente rompa a corda. E que, com isso, eu me desgarre de toda uma possibilidade de futuro acolhedora. Nem sempre eu choro nessas horas, mas sempre dói. E é essa dor seca e repentina que, por alguma razão, eu sinto agora.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 6, 7 e 9 de abril de 2011.

Querido amigo,
mais uma vez escrevo na ânsia por ler-me pelos seus olhos e, talvez assim, sorrir um pouco. Você disse que chorou enquanto escrevia suas respostas que nunca chegarão a mim. Eu sinto muito. Nesse momento, sou eu que quase exibo minhas lágrimas. Eu lhe disse que eram apenas uns dias de encantamento, nada mais. Não se preocupe, nada aconteceu. Não ali fora, apenas aqui dentro, onde as noites representam sonhos do que não quero nunca mais ver. Por isso eu não durmo e lhe escrevo, por isso eu lhe conto histórias, por isso eu invento vidas que gostaria de sonhar, se pudesse escolher (que sequer chegam a ser a que eu gostaria de viver).
"Estou bem onde estou", eu repito.

-------------------------------------------

Hoje acordei gritando. Sonhei que alguém me sufocava no escuro. Posso jurar que ao lado da cama uns olhos me observavam. Eu rezei, com a minha fé estranha que surge quando mais preciso. Mas não fechei os olhos, com medo.
Voltar a dormir, mas era impossível depois de ter ouvido meu próprio grito no escuro. Então peguei meu travesseiro e coberta e me aninhei no sofá do quarto dos meus pais. Derrubei um copo d´água no caminho, mas não me importei. Ali eu estava segura, embora não tenha pedido a benção para não acordar minha mãe. Eu me pergunto como será morar em uma casa que não tenha um canto para eu me esconder do que me assusta.

---------------------------------------
Acabei de pensar que gostaria de conversar com você. Temos nos desencontrado tanto esses dias, em que o cansaço me vence e meus olhos ardem. Sinto-me só, como há tempos não me sentia. É aquela solidão que só sentimos ao fim de um amor, e eu sempre revivo o fim dos meus amores. Eu gostaria de explicar mais, não posso. Porque sei que qualquer dia desses estaremos nos machucando com indiretas cortantes, e nós não merecemos isso. Embora, é verdade, eu insista que temos sempre o que podemos suportar (será mesmo, querido? Por favor, só diga que sim).
Mais uma vez eu peço que me falem o que gostaria de ouvir. E depois reclamo pedindo sinceridade em altas doses, para derrubar as ilusões que crio sozinha. Perdão, meu amigo, eu sei que exijo demais das pessoas (mas será demais querer verdades que tragam sorrisos?). Ah, você odiaria saber de onde vem a dor que diluo nessas entrelinhas. Você se decepcionaria, o que me doeria mais ainda. Afinal, minha própria dor vem da decepção que tive comigo por não ter aprendido algumas lições. E a minha raiva vem de saber que eu faria tudo de novo, mais uma vez, mesmo sabendo o que viria depois.
Desculpe a tempestade, mas esse virou meu refúgio, espero que entenda.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 4 de abril de 2011.

Querido M.,
Por esses dias fui surpreendida pela possibilidade de um novo encantamento. Rendeu-me dois dias de sorrisos bobos e suspiros disfarçados. E mais um dia de algum lamento, incômodo e insônia. De qualquer forma, parece que a minha alegria vem justamente de da possibilidade de ainda iludir-me e sonhar. Faz sentido?
Não é exato dizer que o encantamento era novo, mas resurgiu na hora que devia, para mostrar que meu estômago ainda não virou pedra e que eu ainda balanço. Passou, é verdade, porque não deveria durar, já que era só uma amostra de que qualquer coisa ainda anseia em mim.
Nem sei porque conto isso. Já é tarde e estou sozinha, então fiquei pensando essas coisas. Como de vez em quando é importante cair nessas armadilhas só para aquietar o espírito (ou despertá-lo, vai saber).
Hoje também notei que isso a que chamo de cartas está destinado a ser um monólogo solitário. Era essa a regra desde o início, não era? Eu me exponho e você se esconde em mistérios, codinomes e frases indecifráveis para mim. Agora resta o silêncio do seu olhar, que a tudo lê, mas que não se manifesta (e, ainda assim, me conforta).

domingo, 3 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 3 de abril de 2011.

Querido M.,
Você disse que gostaria de ler o que escrevo. Eu lhe respondi que não tenho escrito mais. "Preciso de um novo ex-amor para me inspirar", eu expliquei. Então, você pediu para que eu lhe escrevesse, como antes. E aqui estou, por não ter nunca aprendido a negar-me.
Eu lhe escrevo, mas não sou a de antes e nem você é aquele. O nanquim azul que você mesmo pediu e que lhe entreguei naquela curta viagem de ônibus cortou os laços que faziam com que respondesse aos meus devaneios literários. E eu só escrevia para ler suas respostas que eu, na minha falta de experiência, não compreendia inteiramente.
Como posso me alegrar tanto com o gosto do que não compreendo se a minha vida é uma luta por entender mais, sempre? Todos insistem para que eu pare com os meus porquês infantis, mas você os atura calmamente, porque sabe que é um traço disso que nós dois chamamos de "minha essência".
A minha curiosidade, não pretendo que me leve a lugar algum. É mais uma vontade de acalmar esses fantasmas que se movem sempre à noite, fingindo serem vento e me impedindo de dormir.
Eu paro por aqui, meu querido, mas não é só (nunca é). Voltarei a lhe dirigir algumas linhas, mesmo sem novos desamores. Agora, tenho tarefas a cumprir, já que o mundo nunca estanca para que recolhamos os cacos. E só hoje eu agradeço a ele por isso. O Tempo ao correr mostrou-me que não preciso mais de alguns pedaços, e que cá estou inteira novamente. E feliz, se cabe dizer. Pelo menos por hoje, pelo menos por enquanto. E o por enquanto me importa bem mais agora que os "para sempre" que vi ruir nas minhas andanças.

Cuide-se, porque mesmo longe você ainda é em quem penso quando esmoreço e preciso de cuidados. Você, o ponto de ônibus e a chuva.

Um abraço e um beijo,
da menina que continua a brincar de balanço