terça-feira, 26 de abril de 2011

Rio de Janeiro,dia de chuva no final de abril, 2011.

Hoje meus olhos também choveram, meu amigo. E embaçavam menos a minha vista que as gotas que caiam no vidro do carro, e as luzes de freio vermelhas dos carros a minha frente. Chorar ao volante tem as suas lições: dura pouco, porque o mundo não para que você chore. Todos querem correr, enquanto você pensa que só quer parar em um colo e adormecer um pouco. Todos querem chegar a um lugar, e você só quer voltar no tempo um pouquinho para observar melhor e, talvez assim, entender depois.

É realmente uma merda essa minha obsessão por entender tudo. Mas se você lesse o que eu reli, talvez você também se perguntasse como as coisas aconteceram desse jeito, como em três dias os discursos se transformam, como as possibilidades de felicidade escapam rápido por palavras suspiros e sorrisos. E eu nunca me agarrei tanto a algo. Nunca. E nunca perdi tão rápido.

Tenho medo de um desses pedaços que perco ser o mais bonito. Eu tenho tanto medo de ter medo de encantamentos, detalhes e suspiros. De, repentinamente, começar a me negar e proteger. Ao mesmo tempo, estou fraca demais para outros tombos e machucados. Eu nunca me deixo cicatrizar, é verdade, mas é por carinho que reabro a ferida, em busca de um resquício de amor, ou algo assim.

Bem, amanhã passa...

ps: Adorei conversar (e rir) com você ontem. Desculpas pelo meu medo de chuva e mau-humor repentino.. : )

domingo, 24 de abril de 2011

Rio de Janeiro, domingo de Páscoa.

Querido amigo,
Escrevo porque é domingo e espero o remédio para dormir fazer efeito. Tive um feriado alegre e etílico, mas domingos são sempre domingos, não é mesmo? Eu pensei que meu pai tivesse confundido ressaca com tristeza quando questionou meu silêncio, fora da baderna habitual a que se acostumou na minha presença. Acontece que não há ressaca, deve ser mesmo tristeza.
Meu pensamento foge para onde não desejo ir. Será que um dia eu vou entender realmente o que se passou? Eu relembro os "eu te amo" que ouvi ao longo da vida, e os que disse também. Eu, fiel escudeira preocupada com o peso dessa frase e com as responsabilidades que ela acarreta. Eu nunca consegui ser leviana com essas palavras. E desconfio tanto de quem as fala sem engasgar, sem ter brilho nos olhos, sem suor nas mãos, sem tremedeiras! Eu desconfio tanto quando essas palavras são ditas no escuro, como recompensa pelo sexo! Eu desconfio tanto quando dito a esmo, sem cuidado! Porém, eu sempre acredito, querido. Porque para mim é crueldade demais usar esse artifício e eu sempre espero o melhor de cada um.
Mas e se as pessoas simplesmente forem cruéis? Se algumas pessoas forem semeadoras de ilusões e falsidades? Ou será que somente não sabem amar, mesmo sentindo? Amar é verbo, amigo. E só ocorre na ação.
Amar é correr, é brigar, é lutar, é enfrentar. Amar é perdoar, é se arrepender, é recomeçar. Amar é fazer, não só falar. Amar é jogar tudo para o alto, se for preciso. Amar é querer estar junto.
Amar é tudo aquilo que não aconteceu logo depois de eu ouvir "eu te amo". Porque antes de dizer devemos ter certeza, e tendo a certeza faz-se um futuro. Se não queremos um futuro para que dizer? Eu devia ter prestado atenção nas mãos, nos olhos, no ritmo do coração... as palavras são apenas palavras... mas amar nunca é apenas...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2011.

Querido,
Já que você falou nisso hoje, fiquei me perguntando quantos desencontros há nessa vida (e se não seria mais exato dizer que "a vida é a arte do desencontro, embora haja alguns encontros pela vida..."). Que o Poetinha me perdoe a heresia, mas saber o que fazer dos desencontros é uma arte muito difícil de dominar. Como no poema de Elizabeth Bishop, One art:

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."


Desencontros são perdas? Ou serão presentes em embrulhos amassados? Quantos desencontros posso ter nessa vida? Quantos descompassos me aguardam ainda? Quantos desamores esperam o momento de vir à tona? Quantos desatinos posso cometer só pelo medo ou pelo orgulho da perda? E quantas vezes precisarei me perdoar por não dominar essa arte de perder? Não, não quero respostas. Espero um dia parar de formular essas questões infantis.

Nessas horas penso se não estou deixando de ser rio para ser lago. Se algum dia fui mesmo um rio corrente... Ou se só finjo desaguar o que guardo lá no lodo do fundo. Então lembro do que li sobre mar, pesca e lagoa, sobre abertura, triangulação e coisas sem sentido agora, mas que me fizeram sorrir um dia de fascinação. E eu sorrio de novo, constatando que minha dúvida não tem lugar de ser. Porque a minha natureza de água não muda, e é ela que muitas vezes foi condenada.

Estou cansada, vou dormir. Sinto falta de conversar com você. E sinto falta de não precisar correr tanto quanto agora.

Um beijo,
da menina cansada de balançar alto e não voar

terça-feira, 12 de abril de 2011

Minha vida é tomada por ensaios de recomeços e reencontros. Eu nunca desisto das pessoas, até elas terem desistido de nós. Meu amor é teimoso, persistente e eterno. Minhas amizades seguem as mesmas regras, embora com uma maior condescendência. Em suma, eu sempre acho que há algo ali a ser vivido, a ser compartilhado. Minha ingenuidade infantil não me permite ver finais ou mortes.
Acontece que sempre vem as tais das gotas. Aquelas que transbordam os copos, os corações e as palavras. É nessas horas que eu faço um corte imaginário e me coloco do outro lado da linha, cheia de orgulho. A gota às vezes é uma palavra, um gesto, um olhar. A gota muitas vezes é o silêncio e a solidificação do que ele traz. A gota às vezes se mascara de carinho, em outras cai asperamente.
E nem todo o meu apego as relações impede que uma gota simplesmente rompa a corda. E que, com isso, eu me desgarre de toda uma possibilidade de futuro acolhedora. Nem sempre eu choro nessas horas, mas sempre dói. E é essa dor seca e repentina que, por alguma razão, eu sinto agora.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 6, 7 e 9 de abril de 2011.

Querido amigo,
mais uma vez escrevo na ânsia por ler-me pelos seus olhos e, talvez assim, sorrir um pouco. Você disse que chorou enquanto escrevia suas respostas que nunca chegarão a mim. Eu sinto muito. Nesse momento, sou eu que quase exibo minhas lágrimas. Eu lhe disse que eram apenas uns dias de encantamento, nada mais. Não se preocupe, nada aconteceu. Não ali fora, apenas aqui dentro, onde as noites representam sonhos do que não quero nunca mais ver. Por isso eu não durmo e lhe escrevo, por isso eu lhe conto histórias, por isso eu invento vidas que gostaria de sonhar, se pudesse escolher (que sequer chegam a ser a que eu gostaria de viver).
"Estou bem onde estou", eu repito.

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Hoje acordei gritando. Sonhei que alguém me sufocava no escuro. Posso jurar que ao lado da cama uns olhos me observavam. Eu rezei, com a minha fé estranha que surge quando mais preciso. Mas não fechei os olhos, com medo.
Voltar a dormir, mas era impossível depois de ter ouvido meu próprio grito no escuro. Então peguei meu travesseiro e coberta e me aninhei no sofá do quarto dos meus pais. Derrubei um copo d´água no caminho, mas não me importei. Ali eu estava segura, embora não tenha pedido a benção para não acordar minha mãe. Eu me pergunto como será morar em uma casa que não tenha um canto para eu me esconder do que me assusta.

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Acabei de pensar que gostaria de conversar com você. Temos nos desencontrado tanto esses dias, em que o cansaço me vence e meus olhos ardem. Sinto-me só, como há tempos não me sentia. É aquela solidão que só sentimos ao fim de um amor, e eu sempre revivo o fim dos meus amores. Eu gostaria de explicar mais, não posso. Porque sei que qualquer dia desses estaremos nos machucando com indiretas cortantes, e nós não merecemos isso. Embora, é verdade, eu insista que temos sempre o que podemos suportar (será mesmo, querido? Por favor, só diga que sim).
Mais uma vez eu peço que me falem o que gostaria de ouvir. E depois reclamo pedindo sinceridade em altas doses, para derrubar as ilusões que crio sozinha. Perdão, meu amigo, eu sei que exijo demais das pessoas (mas será demais querer verdades que tragam sorrisos?). Ah, você odiaria saber de onde vem a dor que diluo nessas entrelinhas. Você se decepcionaria, o que me doeria mais ainda. Afinal, minha própria dor vem da decepção que tive comigo por não ter aprendido algumas lições. E a minha raiva vem de saber que eu faria tudo de novo, mais uma vez, mesmo sabendo o que viria depois.
Desculpe a tempestade, mas esse virou meu refúgio, espero que entenda.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 4 de abril de 2011.

Querido M.,
Por esses dias fui surpreendida pela possibilidade de um novo encantamento. Rendeu-me dois dias de sorrisos bobos e suspiros disfarçados. E mais um dia de algum lamento, incômodo e insônia. De qualquer forma, parece que a minha alegria vem justamente de da possibilidade de ainda iludir-me e sonhar. Faz sentido?
Não é exato dizer que o encantamento era novo, mas resurgiu na hora que devia, para mostrar que meu estômago ainda não virou pedra e que eu ainda balanço. Passou, é verdade, porque não deveria durar, já que era só uma amostra de que qualquer coisa ainda anseia em mim.
Nem sei porque conto isso. Já é tarde e estou sozinha, então fiquei pensando essas coisas. Como de vez em quando é importante cair nessas armadilhas só para aquietar o espírito (ou despertá-lo, vai saber).
Hoje também notei que isso a que chamo de cartas está destinado a ser um monólogo solitário. Era essa a regra desde o início, não era? Eu me exponho e você se esconde em mistérios, codinomes e frases indecifráveis para mim. Agora resta o silêncio do seu olhar, que a tudo lê, mas que não se manifesta (e, ainda assim, me conforta).

domingo, 3 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 3 de abril de 2011.

Querido M.,
Você disse que gostaria de ler o que escrevo. Eu lhe respondi que não tenho escrito mais. "Preciso de um novo ex-amor para me inspirar", eu expliquei. Então, você pediu para que eu lhe escrevesse, como antes. E aqui estou, por não ter nunca aprendido a negar-me.
Eu lhe escrevo, mas não sou a de antes e nem você é aquele. O nanquim azul que você mesmo pediu e que lhe entreguei naquela curta viagem de ônibus cortou os laços que faziam com que respondesse aos meus devaneios literários. E eu só escrevia para ler suas respostas que eu, na minha falta de experiência, não compreendia inteiramente.
Como posso me alegrar tanto com o gosto do que não compreendo se a minha vida é uma luta por entender mais, sempre? Todos insistem para que eu pare com os meus porquês infantis, mas você os atura calmamente, porque sabe que é um traço disso que nós dois chamamos de "minha essência".
A minha curiosidade, não pretendo que me leve a lugar algum. É mais uma vontade de acalmar esses fantasmas que se movem sempre à noite, fingindo serem vento e me impedindo de dormir.
Eu paro por aqui, meu querido, mas não é só (nunca é). Voltarei a lhe dirigir algumas linhas, mesmo sem novos desamores. Agora, tenho tarefas a cumprir, já que o mundo nunca estanca para que recolhamos os cacos. E só hoje eu agradeço a ele por isso. O Tempo ao correr mostrou-me que não preciso mais de alguns pedaços, e que cá estou inteira novamente. E feliz, se cabe dizer. Pelo menos por hoje, pelo menos por enquanto. E o por enquanto me importa bem mais agora que os "para sempre" que vi ruir nas minhas andanças.

Cuide-se, porque mesmo longe você ainda é em quem penso quando esmoreço e preciso de cuidados. Você, o ponto de ônibus e a chuva.

Um abraço e um beijo,
da menina que continua a brincar de balanço