Querido amigo,
mais uma vez escrevo na ânsia por ler-me pelos seus olhos e, talvez assim, sorrir um pouco. Você disse que chorou enquanto escrevia suas respostas que nunca chegarão a mim. Eu sinto muito. Nesse momento, sou eu que quase exibo minhas lágrimas. Eu lhe disse que eram apenas uns dias de encantamento, nada mais. Não se preocupe, nada aconteceu. Não ali fora, apenas aqui dentro, onde as noites representam sonhos do que não quero nunca mais ver. Por isso eu não durmo e lhe escrevo, por isso eu lhe conto histórias, por isso eu invento vidas que gostaria de sonhar, se pudesse escolher (que sequer chegam a ser a que eu gostaria de viver).
"Estou bem onde estou", eu repito.
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Hoje acordei gritando. Sonhei que alguém me sufocava no escuro. Posso jurar que ao lado da cama uns olhos me observavam. Eu rezei, com a minha fé estranha que surge quando mais preciso. Mas não fechei os olhos, com medo.
Voltar a dormir, mas era impossível depois de ter ouvido meu próprio grito no escuro. Então peguei meu travesseiro e coberta e me aninhei no sofá do quarto dos meus pais. Derrubei um copo d´água no caminho, mas não me importei. Ali eu estava segura, embora não tenha pedido a benção para não acordar minha mãe. Eu me pergunto como será morar em uma casa que não tenha um canto para eu me esconder do que me assusta.
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Acabei de pensar que gostaria de conversar com você. Temos nos desencontrado tanto esses dias, em que o cansaço me vence e meus olhos ardem. Sinto-me só, como há tempos não me sentia. É aquela solidão que só sentimos ao fim de um amor, e eu sempre revivo o fim dos meus amores. Eu gostaria de explicar mais, não posso. Porque sei que qualquer dia desses estaremos nos machucando com indiretas cortantes, e nós não merecemos isso. Embora, é verdade, eu insista que temos sempre o que podemos suportar (será mesmo, querido? Por favor, só diga que sim).
Mais uma vez eu peço que me falem o que gostaria de ouvir. E depois reclamo pedindo sinceridade em altas doses, para derrubar as ilusões que crio sozinha. Perdão, meu amigo, eu sei que exijo demais das pessoas (mas será demais querer verdades que tragam sorrisos?). Ah, você odiaria saber de onde vem a dor que diluo nessas entrelinhas. Você se decepcionaria, o que me doeria mais ainda. Afinal, minha própria dor vem da decepção que tive comigo por não ter aprendido algumas lições. E a minha raiva vem de saber que eu faria tudo de novo, mais uma vez, mesmo sabendo o que viria depois.
Desculpe a tempestade, mas esse virou meu refúgio, espero que entenda.
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