Querido,
Já que você falou nisso hoje, fiquei me perguntando quantos desencontros há nessa vida (e se não seria mais exato dizer que "a vida é a arte do desencontro, embora haja alguns encontros pela vida..."). Que o Poetinha me perdoe a heresia, mas saber o que fazer dos desencontros é uma arte muito difícil de dominar. Como no poema de Elizabeth Bishop, One art:
"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."
Desencontros são perdas? Ou serão presentes em embrulhos amassados? Quantos desencontros posso ter nessa vida? Quantos descompassos me aguardam ainda? Quantos desamores esperam o momento de vir à tona? Quantos desatinos posso cometer só pelo medo ou pelo orgulho da perda? E quantas vezes precisarei me perdoar por não dominar essa arte de perder? Não, não quero respostas. Espero um dia parar de formular essas questões infantis.
Nessas horas penso se não estou deixando de ser rio para ser lago. Se algum dia fui mesmo um rio corrente... Ou se só finjo desaguar o que guardo lá no lodo do fundo. Então lembro do que li sobre mar, pesca e lagoa, sobre abertura, triangulação e coisas sem sentido agora, mas que me fizeram sorrir um dia de fascinação. E eu sorrio de novo, constatando que minha dúvida não tem lugar de ser. Porque a minha natureza de água não muda, e é ela que muitas vezes foi condenada.
Estou cansada, vou dormir. Sinto falta de conversar com você. E sinto falta de não precisar correr tanto quanto agora.
Um beijo,
da menina cansada de balançar alto e não voar
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